Indígenas venezuelanos buscam abrigo em Rondon do Pará

Por João Carlos Oliveira

Quem passa pela praça da Paz deve ter percebido a presença de algumas pessoas que estão utilizando o local durante o dia e que ao entardecer se acomodam para dormir na calçada de uma loja ao lado da rodoviária velha. São indígenas venezuelanos da etnia Warao que estão em Rondon do Pará desde o final de maio. São três famílias que totalizam quase 20 pessoas. Aqui, querem encontrar emprego. Os homens pretendem trabalhar como ajudantes de pedreiro ou pintores, um deles já trabalhou em usina de beneficiamento por um ano em Pacaraima. As mulheres sabem trabalhar como costureiras.

Antes de vir para Rondon, os indígenas estiveram por um ano em Roraima, nas cidades de Pacaraima e Boa Vista. Depois, foram para Manaus, no Amazonas, e por fim chegaram ao Pará, onde passaram por Belém. Também chegaram a ficar um tempo na cidade maranhense de Açailândia. Esse percurso já dura cinco anos em busca de uma vida melhor. “A Venezuela não tem mais nada. Não temos nem comida, nem roupas”, explicou o cacique Roselindo Paredes que, com muito esforço, busca se comunicar em português.

No dia 28 de maio, a Secretaria de Assistência Social abordou alguns desses indígenas. De acordo com a chefe da pasta Eudicia Reis, eles rejeitaram a possibilidade de irem para um abrigo. Servidores da prefeitura chegaram a falar por telefone com o cacique, que até então não havia chegado em Rondon. No dia 9 de junho, já com a presença do líder, a 1ª Igreja Batista ofereceu acolhida aos indígenas e a Secretaria de Assistência se comprometeu a efetuar doações pontuais. Eles foram a um abrigo mas após a primeira noite no lugar, o grupo foi embora alegando que os mosquitos não teriam deixado ninguém dormir, e que teriam incomodado principalmente as crianças. Por isso, voltaram para a rua. Mas, com as chuvas do inverno amazônico, se mostraram dispostos a utilizar o abrigo. O pastor José Francinel disse que, como os indígenas desistiram da casa, ele rescindiu o contrato de aluguel que havia feito. “Na época só tinha uma família aqui, agora com a chegada de mais pessoas as coisas se complicam. Não podemos prometer nada, mas estamos dispostos a fazer o máximo possível para tira-los da rua”. O pastor disse estar aberto até mesmo para parcerias com outras instituições.

Warao

Os Warao (povo das águas) viviam no delta do rio Orinoco, na Venezuela. Eles tinham na pesca o seu sustento, até que a construção de barragens e a atuação de empresas petroleiras na região contaminaram as águas. Um brutal processo de urbanização em um contexto de crise econômica fez com que eles saíssem do país. O ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) registrou desde 2018 a entrada de 5 mil indígenas venezuelanos no Brasil, que se dividem em quatro etnias, Warao (66%), Pemon (30%), Eñepa (3%) e Kariña (4%). Desse total 3,2 mil solicitaram a condição de refugiados, ou seja, possuem o perfil de alguém que foi forçado a deixar seu país devido ao temor de perseguição ou contínua violação dos direitos humanos.

Indígenas em Marabá

Há um outro grupo de indígenas venezuelanos da etnia Warao que está em Marabá há mais de dois anos, e com o suporte do Ministério Público já conseguiram um abrigo. Segundo a irmã Zélia Maria Batista, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), os povos indígenas querem uma oportunidade para se inserir na sociedade. Eles produzem artesanato, trabalham na feira e pleiteiam vagas na área de reciclagem da prefeitura. Mas Zélia afirma que ainda há um certo preconceito da sociedade em torno dos venezuelanos. “As instituições e a sociedade como um todo precisam estar envolvidas com essa causa e cobrar os direitos dessas pessoas. É importante conhecer o contexto da imigração forçada para se evitar visões discriminatórias.” Em Marabá, além do CIMI, instituições como a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Universidade do Estado do Pará (UEPA), Cáritas, Ministério Público e Secretaria Estadual de Assistência Social tem contribuído com o acolhimento. Zélia afirma já ter contatado também a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que alegaram não ter políticas de acolhimento para estrangeiros.

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