Casos de leishmaniose preocupam comunidade

Por Camila Gusmão

O número de cachorros infectados com leishmaniose visceral cresceu nos últimos anos. Desde 2017 Rondon do Pará está em estado de alerta. Os dados, divulgados pela Vigilância Sanitária do município no final do ano passado, revelam que, dos 931 animais examinados, 350 foram diagnosticados com a doença. 

No Brasil a leishmaniose, também conhecida como Calazar, está registrada em vários estados, provocada por diferentes aspectos sociais e climáticos. A doença, transmitida pela picada de insetos vetores que pertencem às espécies de flebotomíneos, se não for tratada pode levar ao óbito. O mosquito se prolifera em locais húmidos e com a presença de matéria orgânica em estado de decomposição. Animais selvagens, domésticos e seres humanos podem ser afetados, mas a cura só existe para seres humanos. Os cachorros não passam o vírus para os humanos, mas são os principais reservatórios do parasita. 

De acordo com a enfermeira Nilzete Martins, coordenadora da Vigilância Sanitária e Saúde, Rondon do Pará está entre os municípios com potencial para desenvolver a doença em humanos. A utilização do mesmo eixo rodoviário e o fluxo migratório entre as áreas contaminadas, além presença confirmada do vetor da leishmaniose visceral, agravam a situação. Os mais suscetíveis ao vírus são crianças e idosos, porque não tem um sistema imunológico bem definido. “Em muitos locais próximos, como Marabá, já tiveram casos, estamos vulneráveis. Já tem o mosquito e o cachorro infectado, só falta ter o ser humano”, comenta. 

Para identificar o vetor da doença, os agentes do Departamento de Endemias colocam armadilhas nos bairros para capturar os insetos e mapear a área investigada. Após detectar os locais com maior presença do mosquito infectado, os agentes visitam as casas e coletam a amostra sorológica dos cachorros. 

Os exames são encaminhados para o Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN) e os resultados chegam em até 15 dias. Se for positivo, o dono do animal contaminado é chamado para realizar a eutanásia. O tratamento para cães ainda não é ofertado pela rede pública. “O ideal para não disseminar a doença seria a criação de um Centro de Controle de Zoonozes (CCZ), como não temos, os animais estão soltos por aí espalhando o vírus”, afirma a enfermeira Nilzete Martins.

A comerciante Sonielle Barros teve dois cães infectadas que faleceram por causa da doença. Inicialmente, pensou que os animais estavam com alergia ou sarnas, mas ao identificar os sintomas de Calazar solicitou os exames e o resultado foi positivo. Para Sonielle Barros, o aumento dos casos de leishmaniose está ligado à inexistência de saneamento básico no município e a falta de conscientização da população que, além de abandonar os animais nas ruas, acumula lixo – onde o mosquito se prolifera. “Como vamos fazer se ninguém respeita as regras? Os animais pegaram a doença, mas eu também posso pegar”, declara.

Canil Improvisado

Em 2018 a prefeitura criou um ponto de referência onde atende os cães suspeitos de estarem com a doença e realizam a eutanásia, quando é necessário. O canil, de estrutura improvisada, está localizado no bairro Miranda e funciona toda terça e quinta-feira, das 8h às 12h. No entanto, ainda não existe um suporte adequado para capturar os animais em situação de rua, castra-los e alimentá-los, até que encontrem um destino. É necessário que o cão infectado tenha um responsável para permitir o procedimento de eutanásia, caso não tenha um dono, a prefeitura não pode atende-lo. 

De acordo com a veterinária, Marcia Lacerda, responsável pelo local, o ideal seria a criação de um CCZ para atender a demanda do município. A veterinária alerta que não adianta apenas eliminar os animais infectados, é necessário combater o mosquito. Portanto, se deve evitar locais onde caem muitas folhas ou frutas e acumulam humidade, fungos ou fezes de animais. “Quando eu fazia visita domiciliar, toda casa que eu entrei, que tinha criatório de galinha, o cachorro estava infectado. É por causa do galinheiro que acumula fezes e atrai o mosquito”, afirma. 

Para o prefeito Arnaldo Rocha, os cachorros em situação de rua, na verdade, possuem dono. Portanto, o trabalho da prefeitura se desenvolve na busca por animais infectados e seus responsáveis. Um canil foi pedido para o governo, mas de acordo com o prefeito, o município não tem capacidade para receber um CCZ, que contempla apenas cidades acima de 150 mil habitantes. 

Entretanto, o Ministério da Saúde elaborou, em 2017, um manual de normas técnicas para estruturas físicas de Unidades de vigilância de Zoonoses (UVZs). As construções podem ser realizadas com fomento do governo federal, ou com recurso próprio de cada município, de acordo com a demanda regional. No documento consta a estrutura minimamente adequada para atividades de saúde voltadas para a vigilância sanitária, de acordo com a população de cada município. Rondon do Pará, com a população estimada em 52 mil habitantes, pode receber uma unidade de “Canil 2”. 

Segundo o prefeito, os agentes comunitários e os postos de saúde de Rondon do Pará atuam nas ações de conscientização para combater a doença. Também foram incluídas matérias sobre educação ambiental na grade curricular dos alunos. O prefeito declara que fez o pedido de um “Castra Móvel”, mas ainda está sem previsão de quando será contemplado. O equipamento poderá ajudar a diminuir a quantidade de animais errantes, já que realizará gratuitamente a castração dos animais. “Tomamos as atitudes necessárias para ver se acaba com a doença e o primeiro passo é a conscientização”, afirma.

O tratamento

A leishmaniose canina afeta todas as raças. Alguns sintomas podem ser observados nos animais infectados, como o crescimento excessivo das unhas, perda de pelos, emagrecimento e descamação na pele.

Como informa o médico veterinário, Willian Ribeiro, a maioria dos seus clientes querem fazer o tratamento nos animais, mas depende do perfil econômico do proprietário. Conforme o peso do cão, o procedimento sai entre R$ 1500 e R$ 2000. Entretanto, é necessário fazer um monitoramento a cada 6 meses, com check-up, para ver se tem mais protozoário no sangue. “O animal vive normalmente, se fizer o tratamento correto e pegar a doença no início. Outro problema é que o pessoal deixa para fazer o exame muito tarde, aí é difícil resolver”, declara.

Os animais que aparecem com os sintomas da doença fazem um “teste rápido”, para identificar se existe a possibilidade de estarem contaminados, e são selecionados como possíveis reservatórios da doença. O laboratório demora em torno de duas semanas para entregar o resultado. O tratamento é feito com o medicamento Milteforan, que dura 21 dias. Existe apenas a cura clínica, que é o desaparecimento dos sintomas, mas se o animal tiver uma baixa imunológica o tratamento deve ser realizado novamente. “Um resfriado, que é comum em cães, ou alguma infestação alta de parasita significa que a doença pode ter voltado”, afirma Ribeiro.

Para Willian Ribeiro, é difícil controlar a doença em uma cidade pequena como Rondon do Pará. Segundo ele, as pessoas não têm costume de cuidar bem do animal, que vive na rua. “A maioria não faz um exame de rotina, não tem o hábito de dar um vermífugo para os animais”, comenta.

Problema de saúde pública

Segundo o Ministério da Saúde 90% dos casos de leishmaniose visceral ocorridos na América Latina foram notificados no Brasil. A doença era predominantemente rural e recentemente foi urbanizada, com o aumento de 3.500 casos por ano. 

 O professor Jax Nildo Aragão, doutorando em Saúde Pública na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), avalia que a constituição de várias cidades no sul e sudeste do Pará, sem estrutura ambiental, foi o principal fator de crescimento dos casos. “Teve uma ocupação desordenada do território, com um processo de destruição ambiental. Essa degradação ambiental e todo processo de ocupação transformou a região em área endêmica de doenças, entre elas e leishmaniose e a malária” afirma.

 Para Aragão, a leishmaniose é uma doença que afeta principalmente as pessoas pobres, porque elas não têm o acesso a informação. Em Rondon do Pará não tem uma estrutura urbana consolidada. Sem saneamento básico e com um sistema precário de abastecimento água, as pessoas armazenam água em locais inadequados e os mosquitos se proliferam.  Além disso, tem muitos cachorros abandonados e não existe uma política pública adequada para atender esses animais, recolher, fazer os exames. “Eu acho que tinha que ter uma política pública humanitária, o que seria a gente ter uma mobilização para diminuir a existência de cachorros na rua, porque um vai transmitindo para o outro” declara o pesquisador. 

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